
2 de janeiro de 2009
Vazio(s)

1 de dezembro de 2008

Bater de portas, abrir de janelas, tocar de telefones , sons de computador.
Rita procura ouvir o prenúncio da mudança.
A cada som, contas simples de multiplicar denunciam o bater do coração.
Procura-te com a veemência de quem não se encontrou numa noite fria de Inverno, em que tudo lhe é alheio.
16 de novembro de 2008
O meu amor bateu com a cabeça numa rocha.

(Paula Rego, o fim da história)
7 de novembro de 2008

1 de novembro de 2008

29 de setembro de 2008

24 de setembro de 2008
Discursos Imperfeitos

Talvez abalar o mundo não deva ser a prioridade das acções. Contrapôs o outro, melhor seria se tivesse ficado no silêncio. Todos sabiam que quando botava faladura, Ana não valorizava contraposição, muito menos se gratuita. As opiniões não se discutem, estou a dar a minha, posso estar errada, mas não me importo.
Desta vez, diferente, Ana respondeu: Tens razão, nem todos os nossos actos tem esse objectivo, muito pelo contrário. Percebeu-lhe a estupidez, mas preferiu não deixar-se ferir, estava muito presa aquele texto. Retomou. Posso conviver com essa inutilidade de muitos gestos meus, assim como aqueles que deixei de fazer.
Falou ainda de vidas, de percursos pequenos, condenados de início que, nem por isso, deixam de o ser.
Não devemos esperar muito de uma vida onde não somos os únicos actores. Se este palco fosse só meu...Não conseguiu prosseguir por mais tempo, todas as palavras soavam-lhe ocas e limitou-se ao habitual, tentando fingir que aquele pateta não lhe havia arruinado o discurso.
22 de setembro de 2008

Estava tão velha e acabada. Repetia-se em si própria o que ouvira contar a Filipa. Fugir dos que nos trazem tão más notícias. Filipa contou-lhe prontamente, era um misto de admiração e ódio para com a diva. Ana ouviu e, como sempre, ensaio um riso de desprezo, não maior do que o da outra, que regozijava com a má nova.
Chegada a casa, a história era diferente. A mais tinha descoberto três rugas fortes de cada lado dos seus olhos, que há muito a massacravam. Não esperava um Dorian Gray, mas custava-lhe assimilar aquele fardo, pesado demais para quem acreditava ainda não ter começado a viver.
O tempo por ti não passa. Como sempre, tão bonita. Ainda que estes fossem mais frequentes, esfregados em tantas circunstâncias sociais, Ana revia-se com outras estatísticas e o velha e acabada soava-lhe a verdade crua: um coração pobre e cansado numa carcaça que envelhecia precocemente.
11 de setembro de 2008

Por cada ruga um sonho perdido, ainda lhe saiu a frase, mais poética do que real. Bom seria que assim fosse, eram bem mais os sonhos derrotados do que aqueles riscos na sua face.
Margarida perdera-lhes a conta.
Nascera com o rasgo incrível para sonhar. Caminhava com o brilho dos olhos de quem acredita. Viu-lho José tantas vezes, assim como as em que lhe amparou a frustração.
Viu ela os sonhos, todos e mais alguns, através da câmpanula de vidro onde se agitava. ( Como se houvesse mais alguns que aquela cabeça não se lembrasse... Havia, pois, mas paulatinamente se calaram nesse mesmo mundo em que Margarida se fechou. )
Via-os ela todos os dias quando se investia num mundo que lhe era alheio. Reconhecia-se como ninguém. Eram as suas roupas, as suas frases, os seus amigos... Era ela, no corpo de outra, e de outra, de tantas outras que podiam sorrir.
Margarida recolhia-se naquele espelho, onde tentava integrar a vida frustada naquela cara enrrugada.
Havia duas pernas que sozinhas não podiam andar. Não somos os únicos motores da nossa vida, tentava calar o abalo do ego.
Havia uma vida que não era a sua, mas que tinha que viver. Não nasci para isto, cada um é para o que nasce. A velha Dulce sempre lhe gritava ao ouvido. Cala-te, mulher. Dorme. Amanhã é outro dia.
(paula rego)
4 de setembro de 2008

Rita acordou sobressaltada. Tinha-se visto, de um modo tão claro como só ela o poderia.
Um lençol desbotado a cobrir uma cama onde se debatia sozinha contra a insistência de uma insónia.
Uma almofada inútil no repousar e uma outra igualmente frustrada.
Não houve um abraço, um beijo, uma mão que encontrasse a sua.
Não viu Paulo, o primeiro e único amor da sua vida, não viu Gonçalo, Ricardo ou José, ou qualquer um dos que sucederam.
Apenas a almofada encardida onde se abraçava violentamente num esforço amargo, como todos os que são em vão, para fazer dela gente.
Uma luz fina que atravessava o estore e que denunciava a lua num espelho daquele guarda-roupa.
Esse tão conhecedor dos múltiplos ensaios de Rita para agradar e ser agradada.
Esse que a viu bela como ninguém, ou como ninguém a conseguiu ver.
Esse que amaldiçou os que não tinham os seus olhos.
Esse que a atraiçoava agora e lhe mostrava rugas secas numa cara sem vida.
Que a revelava só e despida, com o prazer de quem assiste ao fim tal como o descrevera.
Que se levantava numa noite cruel e denunciava os pequenos pecados da diva.
Esse, a quem ela tinha dedicado toda a sua vida, tão inutilmente...
O ranger de todas as madeiras sucedeu aos pequenos estalos de uma televisão acabada de desligar, depois um vazio que lhe cortava a alma e a deixava ouvir o palpitar de um coração já cansado para se debater contra mais uma insónia.
(Bartolomeu dos Santos)
31 de agosto de 2008
Ana. De todos, menos de Ana, se esperaria tamanha afirmação.
Há coisas que só se deveriam dizer no último sopro de vida, porque afinal todos temos presente, mas sobretudo ela, o que um calendário ou até um relógio podem fazer a uma vida que se diz feliz.
Há coisas que só se deveriam dizer quando tivéssemos provas irrefutáveis e inabaláveis de que não vamos ser atraiçoados.
Há palavras que têm significados que ardem e que aleijam os que delas fazem um uso inadvertido.
Ainda assim
sem livros, árvores, ou filhos,
sem a quem chamar amor de vida, ou se embalar em noites de insónia,
com um grande nada e de mãos vazias carregando uns sacos de papel,
Ana desafiou os sonhos e quem escreve sobre eles, e, num raio de luz que rasgou o mundo, gritou ser feliz.
27 de agosto de 2008
E falou-lhe de um amor estranho.

Houve uma carta que lhe prometeu ser capaz de ultrapassar a dureza da resposta e devotar-se a um amor eterno.
Lida, lembrada e amarrotada, presa a um livro, vezes demais talvez para quem foi tão seguro no seu não. Ali permanecia de reserva, mas por quanto tempo?
Por quanto tempo seria capaz de prender um amor que não era o seu?
Rui começava a recear a perda de validade daquele precioso documento, ainda assim releu-o uma vez mais.
23 de agosto de 2008

Continuava Ana.
Ouviam-se os risos. Paulo cúmplice sorria.
Pensou alto, talvez pouco.
E então o teu sorriso? Esse valerá mais?
Por momentos, pensaram, até mesmo a própria, que Paulo tinha conseguido o silêncio da diva, mas esta proseguiu após uma breve pausa.
Ouviu-se o silêncio de quem presta atenção.
Se eu chorar com muita força, deixo de me sentir?
Paulo permanecia cúmplice num mundo alheio
Estendeu-lhe o abraço de sempre que, também naquela noite, não lhe calou o sofrimento.
(As palavras acabariam por se esgotar horas mais tarde, como folhas rasgadas de um dicionário, que, nem por isso, deixa de existir.
Ana aceitaria o abraço e repousaria o tormento num ombro que não era o seu.
Paulo abandonaria um pedaço do seu coração já com pouca vida: guardado estará o bocado para quem o há-de comer!)
19 de agosto de 2008

Ana retribui, e, sabes, contava ela a Paulo, eu que até nem tenho muito jeito para esta coisa de sorrisos, sorri mesmo! Como se tivesse significado...
E teve-o. Não o quis admitir a Paulo, sempre tão avesso a deixar-se prender pelos estranhos, mas estava consciente do poder daquele sorriso.
Talvez este nem fosse suficiente ou talvez Ana não seja a mesma, mas já tinha visto antes sorrisos daqueles e sabia bem por que caminhos eram capazes de a conduzir. De qualquer modo, por agora, Ana esforçava-se arduamente por conservar a sensatez e para que este fosse apenas um sorriso lindo.
(barbara kruger)
1 de agosto de 2008
Sublinhados


caiu nos fragmentos de um reflexo
enquanto esperava pelo tempo
que a devolveria a uma vida
....
Esperar angustia, dói, mas não mata
e a vida corre inexorávelmente
Testemunham os ponteiros de um relógio,
os sinos de uma igreja,
mesmo quando marcam o fim de quem foi.
Testemunham as voltas de um mundo
um sol e uma lua que se beijam sem a tua permissão.
....
Rita espera,
Agita-se
Faz-se louca para se dividir
Relê o livro
Saiu-lhe o grito e nem o ouve...
Conta-lhe
Diz-lhe que tudo virá com o tempo
Tudo o que tiver que vir, claro.
31 de julho de 2008
16 de julho de 2008
A luz daquele dia, entediada pela sua inutilidade, fez uso das suas artes mágicas e Pedro e Ana lá abriram os olhos, mas riram-se tanto e tão alto de um sonho lindo em que foram cúmplices, que a luz evanesceu frustrada.
5 de julho de 2008
carrinho de duas rodas
29 de junho de 2008
23 de junho de 2008
3 de junho de 2008
Guardou palavras
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hf
25 de maio de 2008
choveu tanto naquele dia

11 de maio de 2008
tem de se errar

Errou porque assim teve de ser. O relógio não parou para que ela tivesse o tempo para se debruçar sobre o problema, analisá-lo com atenção e cuidado, ensaiar decisões e talvez só depois agir. Não. Rita não teve esse cuidados, tivera muitos outros, mas o imperativo da acção soou alto e fez.
Agora, vive o erro, conhece-o a forma e o conteúdo circulares, mas nenhum destes é estático e inabalável pelas horas ou pelas dias. Sabe que continuará, depressa tudo tomará outras formas, também estas susceptíveis ao tempo e ao andar das coisas...
hf
paula rego: o vómito
7 de maio de 2008
ter a razão

27 de abril de 2008

17 de abril de 2008

hf
miguel telles da gama
28 de março de 2008
olhos cansados viram uma alma triste
Os meus olhos ou os teus?Disse que, nessas alturas, sente todas as palavras lhe soam vazias e que não confiava na sua própria voz.
Falou de amores, de penas, de cruzes, de um coração que sofre, disse-me que amava, pediu um abraço, encostou-se e chorou.
Limpou as lágrimas e saiu-se com esta: nem mesmo sei se estas lágrimas são sinceras.
Amanhã, descansarei este corpo e recuperarei os olhos de sempre...
27 de março de 2008

hf
25 de março de 2008
riso das voltas que a pipa dava

Se dores tinha, daquelas no abdómen por tanto se rir, não parecia, por cada vez se tornava mais poderoso o estridor daquele riso.
Se havia um momento em que se pensava que ia cessar, o engano era imediatamente revelado quando se soltava num daqueles paroxismos nada contagiantes. Repetia a mesma frase, recontrui-a em inúmeros arranjos, trauteava-a como se de canção se tratasse, empenhava notas como se fosse música, mas logo explodia o riso.
Ria alto, tão alto, talvez não o suficiente para preencher o vazio do momento.
18 de março de 2008
Conta-me uma daquelas histórias que te faz sonhar.

hf
(fátima mendonça, sem título)
17 de março de 2008

15 de março de 2008

8 de março de 2008

6 de março de 2008
Ruguites

10 de fevereiro de 2008

1 de fevereiro de 2008
E depois veio o perder...

hf
(júlio pomar: gato e o violino)
23 de janeiro de 2008
De volta à roda do mundo, ainda saberás rodar?
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Patrícia auscultou-lhe um coração partido. Partido, Paula sorriu, do jeito que se faz quando nos dizem o óbvio. Nem um suspiro, nem um comentário, apenas um sorriso talvez também por ver-lhe reconhecida aquele lacinante aperto que a incomodava há muito. Sim, eu sei. Nada mais e já fui muito, talvez demais. Patrícia, essa armazenou o caso, mais um que se parte. Acontece. Fragilidades de um ser. Mas há coisas piores, pois então. Repouso, muito repouso. E as melhoras. Obrigada. Obrigada por quê? Por nada, mas saiu-lhe por educação. A dor era sua e teria aprender a viver com ela. Tudo passa... rematou a ciência ante um coração partido.
2 de janeiro de 2008

Encontrei uma palavra a tentar cair do dicionário. A dúvida infiltrou-se-me por percursos já conhecidos. Talvez o primeiro ímpeto tenha sido o de a forçar a voltar, talvez fosse o segundo. Sei que foram tantas as voltas que perdi a noção de qual o primeiro movimento. Porventura poderia ser importante, fazer a memória ter um esforço, não vá esta ordem de aparecimento estar relacionada com a sua relevância. Não sei se o Guilherme já o sentiu, mas é tão terrível como descobrir que os dias se sucedem sem reflectirem a nossa vontade; e esta comparação é válida, não se apresse a dizer-me que a primeira depende do movimento da nossa vontade. Se o fizer, então nunca o viveu. Descobri que a palavra caiu numa cadeia de acontecimentos inexorável! Até me passou pela cabeça memorizá-la para a voltar a escrever, quando as correntes se acalmassem, mas não! Não e não! Nem me lembro da palavra, sei que o dicionário já não a tem, como qualquer dia perderá outras, e até verá novas serem-lhe escritas.
É terrível, terrível, meu caro perceber que muito passa sem o nosso controlo, mesmo o que a priori pareceria resultado de um esforço volitivo. Terrível também o desespero de não lhe percebermos o rumo.
hf
(fotografia: Chema Madoz)
6 de dezembro de 2007
como se conta a história?

3 de dezembro de 2007
quando o coração ficou pequeno
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24 de novembro de 2007

(Paula Rego, a dar de comer)
1 de novembro de 2007

24 de outubro de 2007
escrita automática...
SF
10 de outubro de 2007

2 de outubro de 2007

Ana hoje aparece envolvida numa questão maior. Há unanimidade e todos o afirmam. O Paulo, esse, permanece no seu mundo, mas a Filipa garantiu que lhe viu o agitar cefálico de aprovação. O caso não é para menos, a Teresa desta vez foi demais... como das outras vezes, de tantas outras vezes, mas hoje parece que todos ou quase todos acordaram com os olhos postos no atrevimento daquela personagem. As palavras foram claras e cairiam, bem afiadas em qualquer pessoa que vestisse essa pele, mas não na Teresa. Esta ainda embelezou o espectáculo e verteu lágrimas. Saem-lhe tão facilmente e, ainda assim, têm algum valor, pelo menos para Paulo. Ficou a remoer aquele acenar. Teria sido muito cruel? Patético, como ele só. Ana percebeu-lhe a antecipada hesitação, como a fenda que iniciou a quebra do momento. Filipa iniciou logo de seguida o vacilar. Era o fim, o coração apertou-lhe bem no peito, a testemunhar a sua existência, e Ana preparou-se para adiantar um se calhar cada um é como é.
hf
(Paula Rego)
30 de setembro de 2007

hf
(ft: Sem título, Chema Madoz)
16 de setembro de 2007

rosas. mais uma vez rosas, penso nas rosas
rosa, cravo, já foi, penso em ontem
ontem, estavas cá e o meu coração prendeu-se ao teu
o teu amor não é maior do que o meu: é na medida certa
língua solta, que sabes tu sobre a medida do amor, quero que caias já
e a língua caiu por que o desejo faz-se ordem no teu pensamento
brinco hoje para ocupar o espaço vazio
hf
(fátima mendonça
sem título)
12 de setembro de 2007

Noutro dia, deu consigo a remoer a ideia de que foi numa noite de Abril, em que adormeceu a chamar por quem lhe limpasse a lágrima.
hf
11 de agosto de 2007
Às vezes, quando o escuro da noite cala o impossível, ensaio o gesto num som calado, porque conheço bem as paredes que te separam de mim.
Sei tão bem as letras que ultrapassam o alfabeto e, às vezes, percebo-as a borbulharem na minha boca. Imagino as permutações, os arranjos e as combinações necessárias para que cada letra se toque e todas elas se fundam, dando-lhe voz.
Talvez possa dizer todas as outras palavras e esta se veja obrigada a fazer-se ouvir. Ou, sei lá, se os deuses andarem por perto, sabes já tu de cor tudo o que quero dizer...
hf
6 de agosto de 2007
outras mãos

Uma mão lava a outra, as duas lavam a cara. E a alma? Quantas mãos me lavam a alma?

Se perdesses os dedos das tuas mãos, conhecê-los-ias para as recontruires?
hf
26 de julho de 2007
mãos
s.f.
24 de junho de 2007
poemas ébrios V
pelo seu aspecto tosco
de granito cinzentão...
achou-se sem graça nem nexo
no mundo... achou-se fosco
e deixou morrer a razão...
resta-lhe a sensação!
autómato com o reflexo
de perseguir própria extinção...
deixa-se então pelo chão...
s.f.
17 de junho de 2007
poemas ébrios IV
num excesso de âmago demente,
e duma fúria de não ser outra gente,
sem o cinzento do sangue que me flui
da vontade de ser diferente.
e o coração teima e não anui,
embora pareça condescendente
com a lógica dada pela mente.
cansa-se, e no sentinte que possui
deixa-se doído, decadente.
s.f.
16 de junho de 2007
psudofilosofias agressivas da "treta"
Coloque-se uma praga na procura do certo! Deixai prevalecer a derrota! Que tudo desista, e depois morra... e certo tudo se tornará doravante...
s.f.
7 de junho de 2007
Maria,
Ainda se lembra, Maria? Faça o esforço e veja-me menina e moça, como a que saiu da casa de seus pais. Recorde-me num vestido azul de cetim do mais caro da venda. Não!, nunca usaria chita, Maria! Talvez a criada! Pronto, mas com certeza uma chita fina, a mais cara do Senhor Luís.
Abandone esses pormenores e fixe-se no meu sorriso, ao som do canto melodioso do que já ninguém sabe de cor...
Maria, olhe-me nos olhos e veja como não sei mentir. Ouça o que digo e responda-me à altura. Embale-me no seu regaço. Pregue-me um beijo e veja a alegria da mão que a puxará, para lhe dar a brancura de uma flor.
"Acordar é que eu não queria... "
hf
(Paula Rego: a aliança dos ratos)
26 de maio de 2007
poemas ébrios III
do meu corpo sem se ser.
turpor estúpido, estúpida calma,
estúpido eu, sempre a morrer.
leio os olhos pela palma
num copo que sobe sem descer,
sem perceber que se me espalma
o que devia perceber...
s.f.
24 de maio de 2007
1985 (after Orwell's 1984)
Saiu do seu quarto cinzento, entrou no quarto-de-banho cinzento, tomou um banho de água cinzenta, vestiu-se de cinzento, escovou o cabelo e os dentes, ambos cinzentos, e saiu...para o mundo exterior, também ele cinzento. O solapsismo infiltrava-se-lhe sob a forma de ausência de cores, dado inexplicavelmente elas lhe trazerem alguma emoção. Numa repressão lógica da mesma, ia sobrevivendo todos os dias, sem viver. Era ditador de si próprio, e só a pesada embriaguez a que se sujeitou de noite o fez perceber de tal situação...
Quando no dia seguinte acordou, tal reflexão estava extinta, e tudo recomeçou como no dia anterior.
s.f.
13 de maio de 2007
poemas ébrios II
Tanta luz!
Nebulina que se me herda
Arrasta o corpo que me conduz,
Mata a garrafa que me seduz!
Ah!Parte-a!
Estilhaça-a!
Derrama o liquido sobrante
Sobre a culpa asfixiante!
Mata a ressaca em que me pus!
Ah!Morra!
Erro de merda!
Não me tenho mais pachorra!
Atinjo-me sempre d'alma lerda!
Caralho p'ra isto! Porra!
s.f.
11 de maio de 2007
Estranho. Estranho foi ter respondido. Esperava uma simples repetição da cortesia e obtive mais; possivelmente pela novidade da resposta, deixei um sorriso. Um simples esforço muscular, que tentava dissipar o peso daquela afirmação e me alhear de uma resposta à altura.
Ironia. Ironia foi dizer ele aquilo que só eu sinto.
hf
5 de maio de 2007
poemas ébrios I
insónia de gente
que sente saudade
de alma diferente.
sem jovialidade,
em morte aparente.
controlo a vontade
de amor ardente,
e vivo a saudade...
não sei ir em frente,
e com pouca idade
cresço decrescente.
e morro diferente...
morro de saudade
por amor ardente...
s.f.
1 de maio de 2007
para os que se julgam sozinhos no mundo
um grande obrigado também a hf, pelo estímulo dado.
para os que se julgam sozinhos no mundo:
"Eu não sou eu, somos nós. Existe em mim uma ausência de unidade, como que se várias personagens habitassem o meu corpo e lutassem entre elas pelo protagonismo de se manifestarem como aquele que deveria ser eu. Algumas já existiam de raiz, outras foram aparecendo por força de ocorrências que massacraram a minha estabilidade relativa.
Dizer que sou por natureza simpático e rancoroso é um erro que me imponho a mim próprio. Nunca sou os dois ao mesmo tempo. Vivo-me em situações diferentes, com atitudes diferentes, porque somos diferentes! Nós, a pluralidade na singularidade da personagem que os outros vêem.
A tristeza é, portanto, possivelmente o único sentimento de união que possuo. Sou triste porque o pretendo, ou porque me vejo pretendê-lo. Sou triste porque sim, porque me sinto eu sendo triste, porque assim sou uno, porque sei que sou eu, verdadeiramente.
Procuro o sucesso, mas empurro-me para a queda…apenas porque tenho medo de mudar. E entristeço-me ao saber que desiludo quem me rodeia, por ser sempre alguém que não devo. Por fazer conhecer a quem me ligo a minha natureza poluída e, infelizmente, contagiosa, afectando negativamente quem amo. E isso é imperdoável.
Consequentemente, as culpas vão-se acumulando com a repetição sistemática do erro de procurar a tristeza. E começo a deixar de me suportar ou tolerar.
Talvez para me entristecer…talvez porque sou má pessoa…"
(15/6/2005) s.f.

